Eduardo e Júlia namoraram por quatro anos e meio quando uma traição veio colocar um ponto final nos sonhos do casal. Na empresa, onde eram amigos de trabalho, o clima ficou bem pesado, mas Júlia tentou amenizar a situação transferindo o local de seu almoço de todos os dias para a lanchonete do outro quarteirão. O almoço não tinha a mesma qualidade que aquele restaurante onde sempre estavam juntos, mas para ela o sacrifício só seria necessário por alguns poucos meses, até que tudo voltasse ao normal, ou então ela o esquecesse e pudesse agir como antes de terem alguma coisa.
Todos sabemos que isso era impossível. A sincronicidade que Júlia e Edu tinham era uma coisa incrível, sabe aquele casal que não precisava de palavras para um saber o que o outro desejava, um olhar apenas dizia tudo? Assim era com os dois.
Tudo parecia muito simples. Bom, eles não eram o primeiro nem o último casal a terem uma relação maravilhosa, que por algum deslize de um dos dois veio a desabar, não é mesmo? Portanto, o que parecia óbvio e absolutamente normal a se fazer era que cada um seguisse seu destino, como dois adultos e pessoas centradas certo?
Certo. Mas o que ignoramos nesse momento, foi a questão dos laços que ficam. Sim, laços! e daqueles com nó de marinheiro, fortes e que a princípio parecem invencíveis e totalmente impossíveis de se desvincular.
Júlia não tinha roupas nem pertences na casa de Edu. E nem ele tinha organizado uma gaveta de meias e cuecas na casa de Júlia. Nada disso. O que tinha ficado de Edu em Júlia era o cheiro, a companhia, os sorrisos, o toque das mãos ... e isso não é possível pedir a devolução, isso é simplesmente arrancado de nós sem pedir licença.
Edu teve que devolver as conversas de Júlia, o companheirismo, o apoio quando ele precisou, o aperto forte das mãos quando ele pensou em perder a cabeça, e aquele sussurro no ouvido que dizia: "- calma amor, tô com você...". Tudo foi devolvido.
Depois dos pertences 'imateriais' serem entregues a ambos, vieram as outras coisas. As perguntas dos amigos, os eventos nos quais não foram mais vistos juntos. Grudados, como sempre foram. Isso foi muito difícil.
Parecia automático, quando Júlia decidia sair de casa, onde sua cama era fiel companhia dos dias chorosos, todos a olhavam e procuravam em algum de seus lados o Edu, como se a paisagem de cada um completasse como um quebra-cabeça feito de apenas duas peças que eram os dois.
- Onde está Edu?
- Em casa dormindo ... - o olhar baixava e um sorriso de lado vinha aos lábios de Júlia que não queria comentar o assunto.
E chegara o dia mais importante de Júlia. A formatura do curso de música em 2 anos que ela se orgulhava em convidar os amigos. Estava tudo pronto, o buffet, o vestido, hora marcada no salão de beleza, a beca de Edu para a cerimônia de ... ops, a beca de Edu? Nossa, não tinha atentado para um imprevisto com esse. Os convites estão todos com os devidos nomes, porque só se tem permissão para entrada os convidados munidos dos convites individuais.
- Oh céus, os convites! - Lamentou Júlia tentando fingir que era só isso que importava, o nome gravado nos convites.
Agora Júlia se encontrava num dilema. Não se sabia de que forma o convite chegaria a Edu e sua família, e o mais importante, de que forma ele os receberia. Interpretado como ofensa, para que ele pudesse vê-la naquele pedestal em seu momento tão importante? Ou, porque de alguma forma Edu também teria torcido para que ela desfrutasse desse momento. Afinal, Edu acompanhou tantos momentos que Júlia se esforçara para concluir os trabalhos da escola de música. A desimpaciência quando encontrava dificuldades com o grupo de estudo, era digno que ele participasse daquele momento. Ou não ...? será que Edu ao receber aquele convite levaria como um insulto no peito sentindo com se aquele convite lhe dissesse palavras-chaves que significasse atitude de ingratidão, traição, lágrimas e sofrimento. E ao mesmo tempo lhe cospisse no rosto e o mostrasse que Júlia conseguira chegar até ali mesmo sem a sua ajuda.
Como seria que Edu iria receber aquele convite? Afinal, depois de uma vida compartilhada juntos, Júlia nem mais era capaz de saber, como companheira e acima de tudo amiga do amado, que pareciam tão cúmplices, a reação e percepção diante de um simples convite. Já que após a separação, a impressão é de que os dois, apesar de tão íntimos, não passavam de simples desconhecidos.
A verdade é que, aquele incômodo poderia não ser sem sentido, assim como naquele convite poderia mesmo conter no texto não um "venha participar da formatura de Júlia", mas na verdade, em um verso bem bonito com letras grandes e douradas, que diria então:
"Nós, O casal Júlia e Eduardo convida você para a cerimônia do nosso casamento..."


05:58
Gerllany Amorim

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